sexta-feira, 26 de julho de 2019

Carne ao vento

Ciniro Nametala - Escrito na hora do almoço de 25 de Julho de 2019 em São Carlos, São Paulo.

EPISÓDIO 1

Haviam tantas crianças soltando pipas no céu que um dia um menino sem pipa se perguntou
“Porquê dentre tantas tão bonitas, coloridas e livres, sem nenhuma aqui estou?”

Um garoto gordo, alto, de camisa listrada, cara amarrada, correndo veio em sua direção
“Você é muito esquisito, não tem pipa, não tem linha, não deveria estar aqui não.”

O menino triste, correu até ficar sozinho, parou ao lado de um laguinho, respirou e chamou a Deus
“Deus você poderia me dar uma pipa? Em troca todos os frutos da minha vida serão seus.”

Fez-se silêncio e Deus não respondeu, mas um sapo que ouvia tudo de uma pedra logo se atreveu

“Garoto, largue de ser bobo, o que lhe falta não é uma pipa e sim saber fazê-la,
sem chorar, arranque do seu corpo sua pele, pegue uma linha e nela martele,
limpe o sangue do seu torso exposto, coloque um sorriso no rosto,
sobre a dor não pense no quanto, volte correndo pro campo,
procure o garoto gordo, faça com ele um acordo,
vire seu amigo, encontre nele um abrigo,
esqueça qualquer perigo,
não é um castigo."

Assim o garoto fez, confiando completamente no sapo, urrou de dor quando a pele saiu, a sua pipa era feia, mas enfim ele conseguiu.



EPISÓDIO 2

Ao chegar no campo, engolindo o choro, o menino fez subir pelos céus sua própria carne ao vento
“Olha gente tem um garoto novo no parquinho, que papagaio diferente, é bonito mas nojento.”

O garoto gordo se aproximou, com desdém analisou, questionou se era mesmo aquilo uma pipa
“Você é muito esquisito, sua pipa não tem cor, não tem rabiola, balança torta, parece uma tripa.”

O menino aceitou seu destino, viveu dessa forma até que um dia pegou uma infecção e foi ao médico
“Homem você não deveria ter feito isso, é patético, você não sabe soltar pipa e isso é genético.”

O homem então lembrou do sapo, entendeu o acontecido, questionou o médico sobre o futuro

“Você não pode repor sua pele, ela acabou, a infecção só dá pra tratar, não dá pra te tirar desse apuro,
o que você pode fazer é levar sua vida, limpar sempre sua ferida pra tentar evitar recaída,
pra cura acontecer você deve estar disposto a se afastar das coisas que lhe fizeram adoecer,
evite frequentar o parquinho, se afaste sempre do sapo no laguinho,
aprenda tudo de novo do começo como se fosse um aprendiz,
se reconecte com o que é a sua raiz,
tente todos os dias ser feliz,
junto dessa cicatriz."

Assim o garoto fez, confiando completamente no médico, urrou de dor quando deixou de ir ao parquinho, mas foi feliz ao entender o valor maior de se estar sozinho.

Obrigado por ler esse texto!
Grande abraço!

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Como plotar uma fronteira não-dominada com R

Ciniro Nametala - Escrito na noite de 25 de Julho de 2018 em Medeiros, Minas Gerais. 

Qualquer pessoa que trabalhe com otimização multiobjetivos, certamente, uma hora ou outra, vai precisar plotar um scatter com os indivíduos não dominados referentes a última população do algoritmo.

Quando o problema tem apenas dois objetivos, ok! Simples de fazer, plot de linha normal. Quando o problema tem quatro ou mais objetivos, existem algumas visualizações bem bizarras por aí, contudo muito provavelmente a pessoa irá usar tabelas e não gráficos para demonstrar seus resultados.

(Sobre visualizações em alta dimensionalidade fica como dica o trabalho muito legal do professor Ivan do Campus Formiga aqui do IFMG [1].)

No entanto, quando o problema possui exatamente três objetivos, apenas plotar o scatter pode ser um pesadelo. Isso acontece pois numa impressão para um paper, por exemplo, o leitor não vai poder girar o gráfico, analisar o posicionamento dos indivíduos e, por causa disso, vai ter dificuldades em visualizar a fronteira não-dominada (Pareto aproximada) formada (não, fronteiras reais quase nunca são lindas como as criadas pelo Deb pro set DTLZ).

Passando por essa situação hoje e fazendo uma pesquisa na internet para tentar achar alguém que já tivesse implementado alguma coisa boa em R, vi que não existe quase nada! E o que existe, em geral, além de muito mal feito utiliza-se de mix de funções da ggplot2, com lattice, com rgl e outros "pacotões coloridos e desajeitados" (alguns discordaram do coloridos e desajeitados).

Em todas as soluções que testei vi ainda alguns problemas como:

1) Não plota superfície 3D sob o scatter dos indivíduos não dominados ou não plota os indivíduos não dominados sob a superfície 3D do scatter.
2) Quando plota a superfície ela é mal feita, sem grade que facilita ver as curvas, vales e cristas e, também, sem sombra/iluminação.
3) Superfície colorida demais, parecendo que saiu de um desenho animado (característica bem marcante (e que eu pessoalmente não gosto) da ggplot2).
4) Em geral, muitos pacotes pedem que você gere a manta (matriz de valores verticais) antes e, só depois, informe ela pra função. Isso é horrível, pois no caso de uma população caracterizada por 3 objetivos, o que você tem são 3 coordenadas e não [x, y, f(x,y)]. Nesse caso é necessário rodar uma função de interpolação que crie automaticamente os valores intermediários para gerar a matriz a partir dos valores do terceiro objetivo (ou eixo z como vai estar escrito no código aí embaixo) e, essa tarefa, não vi ninguém em R implementando, apenas em Matlab. Eu já conhecia o pacote Akima e sabia que lá tem uma função pra isso, então esse é o único pacote que acabei usando o que, inclusive, nos leva ao quinto problema.
5) Eu gosto de usar o que o pacote base do R tem pra geração de gráficos :) então estava procurando algo simples, muito simples.

Vamos então a solução. Código simples, gráfico simples. Tem tudo que é necessário. Além disso usa persp e não persp3d/plot3d da rgl naquele device externo sem vergonha do R (#saudadesmatlab).

library(akima)
d <- CARREGUE AQUI SEU DATASET

x <- d[,1]
y <- d[,2]
z <- d[,3]

s=interp(x,y,z,duplicate="strip")
nondom <- persp(s$x,s$y,s$z,
                phi = 40,
                theta = 55,
                xlab="Wear [µm]",
                ylab="Roughness (Ra) [µm]",
                zlab="Cost [US$]",
                main = "Pareto (3 objectives)",
                expand = 0.8,
                scale=TRUE,
                shade=1,
                col="white",
                border="grey80",
                box=TRUE, d = 1.5)

mypoints <- trans3d(x, y, z, pmat=nondom)
points(mypoints, pch=20, col="black", cex=0.75)

Resultado 😍:


Bem, por hoje é isso!
Abraços!

[1] https://formiga.ifmg.edu.br/professor-apresenta-nova-ferramenta-de-visualizacao-de-dados-em-espacos-de-alta-dimensionalidade-em-congresso-internacional

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

E se...


terça-feira, 14 de novembro de 2017

Ciência na América, ciência no Brasil

Vi em Universo Racionalista que republicou de StalkRadio

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Fronteiras

Ciniro Nametala - Escrito na tarde de 2 de Novembro de 2017 em Bambuí, Minas Gerais.

Até onde sabemos, a terra é uma grande rocha que repousa sobre um manto espaço-tempo girando ao redor de uma estrela, o nosso sol. Das poucas coisas que verdadeiramente entendemos sobre nossa a galáxia, temos ciência de que estamos no subúrbio, que giramos ao redor de imensos buracos negros e que não temos exclusividade/destaque em nada quando pensamos em dimensões cósmicas.

Aqui na Terra, enquanto isso, pessoas são presas e condenadas por cruzarem fronteiras entre países. Países possuem leis próprias e limites geográficos definidos. Essas fronteiras são, na prática, apenas linhas imaginárias, definidas principalmente com base na aglomeração de povos com características afins que passaram por inúmeros processos históricos. Nesse sentido, você pode, por exemplo, sofrer consequências e ter sua liberdade cerceada por cruzar uma linha imaginária colocada sob uma rocha gigante que "flutua" no espaço! E o pior, você não tem culpa de ter vindo parar aqui e muito menos de ter nascido em um país específico.

As fronteiras, ao que me parecem, foram o recurso que encontramos para sobrevivermos como indivíduos. O mecanismo que precisamos desenvolver para nos aguentarmos. Fronteiras sempre existiram, somos tribais, parecem fazer parte da nossa natureza humana e, também, emergem como fato em comportamentos sociais. Ao mesmo tempo, essa entidade (a fronteira), demonstra uma incapacidade gritante que temos em estarmos juntos, em convivermos em paz uns com os outros, logo e nessa linha de raciocínio, fica clara a nossa inabilidade de aceitar, admirar e extrair o melhor das nossas diferenças.



Se isso for tomado como uma evidência de que, como sociedade, somos ainda muito primitivos, precisamos aceitar que na nossa ignorância foi necessário nos separar para não nos matarmos. Além de claro, assumirmos papéis de exploradores e explorados em vários momentos históricos e até hoje. Assim, em uma sociedade em que fronteiras forem dispensáveis poderíamos supor encontrar o mais alto grau de evolução como comunidade. O que claramente não é o nosso caso, longe disso. Perceba que ninguém se descreve como terráqueo ou como espécie. Pareceria, inclusive, maluquice fazê-lo.

Se fronteiras são um recurso de sobrevivência decorrente do nosso processo evolutivo, o ser humano então é um ser que na sua essência não sabe conviver, logo, somos realmente por natureza burros, especialmente quando juntos. E, também, individualistas, inclusive quando juntos.



A terra como lar depende de nós como seres que a habitam para prosperar. Se vemos o planeta como um espaço dividido, fica claro que assumimos a nossa irresponsabilidade pelo que está além do nosso território. Se estar separado então for algo nato do homem, o planeta Terra, desde já, está condenado, pois para sobrevivermos precisamos nos dividir e, ao nos dividirmos, jogamos no lixo a necessária consciência coletiva pelo espaço comum que habitamos.

Por estes motivos, praticar a aceitação e a admiração das diferenças, no que vejo, vai muito além de ter paciência para escutar uma opinião alheia. É sinal óbvio de inteligência e único caminho que nos guiará como espécie ao futuro. Isso apenas, se eu, você e todos nós, como sociedade única, nos permitirmos. Lembre-se sempre, tudo isso é seu.


Imagens:
[1] https://www.naija.ng/533159-photos-refugee-crisis-painful-watch.html#533159
[2] https://fr.dreamstime.com/photos-images/panneau-routier-%C3%A0-la-fronti%C3%A8re-espagne.html
[3] HEMERA/THINKSTOCK

Extra: Uma dica de documentário que faz pensar sobre o papel que temos para exercer coletivamente nesse planeta é o "Em Busca dos Corais", lançado em julho deste ano com direção do Jeff Orlowski. Tem na Netflix. Abaixo o trailer.



Obrigado por ler este texto!
Grande abraço!

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

10 ferramentas pra quem gosta de ver as coisas de um ponto de vista mais numérico

Ciniro Nametala - Escrito na tarde de 28 de Novembro de 2016 em Belo Horizonte, Minas Gerais.



Eu havia visto uma lista com diversas ferramentas que se utilizavam de dados abertos do governo federal (dados.gov.br) para fazer análises estatísticas interessantes em vários segmentos. Depois de conferir todas as fontes e separar as que funcionavam, incrementei com mais algumas outras ferramentas com a mesma proposta que conhecia e elaborei a lista abaixo. São 10 sites, apps, ferramentas (chame como quiser) muito bacanas pra quem gosta de ver as coisas de um ponto de vista mais numérico. Aproveitem!




1) DataViva: Maior plataforma de visualização de dados sociais e econômicos do Brasil. Muito legal para levantar dados, exportar datasets, fazer análises e comparações sobre diversos segmentos.

2) Observatório do investimento: Projeto desenvolvido pelos alunos do DCC/UFMG para monitorar sites de notícias e mídias sociais e levantar dados relevantes que denotam o humor dos mercados.

3) Para onde foi o meu dinheiro: Demonstra de uma forma gráfica e interativa como o orçamento foi executado, na esfera federal e no estado de São Paulo. O aplicativo permite ver a distribuição dos investimentos do governo em suas áreas temáticas como educação, saúde, assistência social, trabalho etc.

4) Aeroportos Brasil: Este é um aplicativo que mostra o movimento de aeronaves e passageiros nos aeroportos administrados pela Infraero. Em aeronaves, estão computados pousos e decolagens. Em passageiros, embarques e desembarques.

5) Probabilidades no futebol: Blog de 5 professores da UFMG que calculam as probabilidades para diversos campeonatos de futebol do Brasil e do mundo. Em breve eles lançarão uma plataforma similar para a Fórmula 1. 

6) Reclamação Procon: Aplicativo que traz informações com visualização simplificada e bem elaborada, incluindo gráficos e figuras, e exibe apenas os principais dados na página inicial de cada empresa, permitindo especificar as reclamações por sexo ou por atendidas/não-atendidas.

7) Radar parlamentar: Análise matemática sobre os dados de votações de projetos de lei na câmara para determinar as “semelhanças” entre partidos na atuação parlamentar. Essas semelhanças são apresentadas em um gráfico bi-dimensional, em que círculos representam partidos e a distância entre esses círculos representam o quão parecido esses partidos votam. Esse “quadro” com os círculos representando os partidos pode ser tomado para uma dada janela de tempo, então é feita uma animação com a “movimentação” dos partidos ao longo do tempo.

8) Basômetro: O Basômetro é uma ferramenta interativa que permite medir o apoio dos parlamentares ao governo e acompanhar como eles se posicionaram nas votações legislativas. Cada um é representado por uma bolinha com a cor do partido. Quanto mais próxima ela está do governo (no alto), maior é a taxa de governismo.

9) Observatório do Plano Nacional de Educação: O Plano Nacional de Educação (PNE) é uma lei ordinária com vigência de dez anos a partir de 26/06/2014, prevista no artigo 214 da Constituição Federal. Ele estabelece diretrizes, metas e estratégias de concretização no campo da Educação. Municípios e unidades da federação devem ter seus planos de Educação aprovados em consonância com o PNE. Você pode acompanhar tudo por este site além de ver quais metas foram atingidas e quais não.

10) Empresômetro: Site que traz estatísticas interessantes sobre a distribuição dos estabelecimentos empresariais no Brasil.


Obrigado por ler este texto!
Grande abraço!

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Comunicado sobre o rapto dos terráqueos

Ciniro Nametala - Escrito na madrugada de 28 de Setembro de 2016 em Medeiros, Minas Gerais.

Olá Marefey!

Arla me entregou hoje suas dúvidas! Como precisamos praticar línguas antigas de planetas recém incluídos na Corporação, resolvi escrever em caracteres alfanuméricos mesmo. Se precisar consultar, procure por alfabeto romano/português/latino... Espero que não se importe.

Seguem todas as respostas de que você precisa. Espero muito que para ler isso você não use o Faceminder. Tente ler como aprendemos com o Prof. Teusak, ler, LER MESMO. Tenho feito isso nos últimos tempos e sinto que de alguma forma acabo absorvendo melhor os conteúdos ou, na pior das hipóteses, acabo me divertindo gastando meu tempo de forma indevida visto que, nesse momento, eu deveria era estar debruçado sobre a minha dissertação kkkkkk enfim...

Espero que goste!


Zany é um planeta vinculado a Corporação Espacial. Não é um planeta tão frio como comentam por aí. Na verdade é um planeta com clima bastante favorável à vida. Tão favorável que foi pra lá que levaram a maioria dos seres humanos raptados de Laryn IV no final do oitavo ciclo.

Para você que não está familiarizado com a geografia galáctica, basta pouca explicação pra entender. O "tal" pra você "Planeta Terra" hoje é chamado de Laryn IV. Ganhou esse nome pois está entre as 18 rochas ultra exploradas também no final do oitavo ciclo pela Laryn Life, obviamente foi a quarta rocha a ser explorada. A Laryn Life possui um segmento muito grande, totalmente focado em exploração de recursos para a vida. É uma empresa que trabalha diretamente e nos interesses da Corporação Espacial. Após a revelação aos terráqueos de que já existe todo um sistema político, financeiro e social consolidado há vários ciclos no nosso evento-tempo (inclusive nesta galáxia que também é deles) foi muito engraçado (como era de se esperar). O negócio causou rebuliço demais. Ficaram ali vivendo seu costumeiro caos interno criando conjecturas diversas e agindo como moléculas instáveis, sem padrão. Acordos, conversas, notícias, opiniões, brigas em espaços ditos públicos e tudo mais. Como eles mesmo dizem numa das expressões deste idioma pelo qual lhe escrevo: "andando em círculos" kkkkkkkkkkkk. 

Terráqueos são realmente criaturas que demoram muito a atingir um estado de maturidade decente sobre qualquer coisa. POR MAIS BANAL E SIMPLES QUE ESSA COISA SEJA! Gosto de citar que, após chegarem em considerável estágio evolutivo, os mesmos passaram ainda por milênios e milênios até descobrirem que combustível, calor e oxigênio geram fogo! Depois disso então, levaram mais séculos para entender que vibrações geram música! E o melhor. Muito recentemente surpreenderam a todos os excêntricos da galáxia que os acompanham quando interligaram de forma muito rústica cabos de fibra e ondas de rádio para transmitir informação kkkkkkkkkkkkk... eu sinceramente acho graça e dou minhas risadas, mas confesso que chego até a acha-los bonitinhos de vez em quando. 

Lembro demais dos dias anteriores ao rapto. Houve uma conversa prévia muito séria entre o Chanceler Laruk e o Major Mynae sobre o que fazer com eles. Muita gente achava que deveriam ser apenas exterminados visto que não tinham nenhuma consciência do seu papel no universo. Um número muito maior deles do que você pode imaginar não consegue simplesmente raciocinar logicamente, sequer se perguntam onde estão, o que fazem ali e o que existe no entorno deles próprios. Como se não fosse o bastante, um ponto que pra eles foi muito desfavorável foi o fato de que eles não agregam absolutamente nada no contexto geral, pelo contrário, destroem. Minha DataBadet está me informando agora aqui inclusive que eles já começavam a lançar sucata além da sua própria atmosfera. No fim, depois de algumas discussões apoiadas pelas sugestões dos sistemas simuladores, prevaleceu como decisão uma ideia oriunda de uma análise de sentimentos feita a partir da base de dados cruzada da Agência Sensun. Essa base é fechada e por isso só tive acesso aos resultados mais sintéticos que são basicamente os seguintes: Todos os terráqueos deveriam ser raptados, reprogramados com técnicas de implante memorial (desses implantes para estruturas biológicas em cérebros baseados em água) e, após isso, serem re-inseridos num ambiente similar ao do Laryn IV. Resolveram escolher Zany pois sua formação lembra muito o "Planeta Terra" de 4 mil anos terráqueos antes do período definido para exploração da Laryn Life. Alguns defenderam também inserir de alguma forma um conhecimento novo em sua estrutura biológica para que sejam mais tolerantes uns com os outros e assim consigam sobreviver em mais estável harmonia. Aquela lei batida demais ensinada há vários eventos-tempo nas academias de transferência.

Voltando ao assunto, no dia do rapto propriamente dito foi mais engraçado ainda. Lá na hora, bases diversas estavam indexando acontecimentos a todo evento-tempo. Apesar da pouca procura de conexões e interesse dos usuários, essas faziam isso mesmo assim, afinal para esse tipo de empresa é tão simples guardar informações que o custo para incluir isso no índice histórico é quase zero. Lá em Laryn IV, no evento-espaço (neste caso no de interesse deles) muita, mas muita gente achou que iria ganhar dinheiro, principalmente os detentores dos primitivíssimos meios de comunicação. Se você não sabe o que é dinheiro pesquise agora aí na sua DataBadet. Em resumo, é algo similar ao nosso Styll de hoje. A diferença é que existem compensações físicas palpáveis além do bit quântico convencional. É como se pra eles fosse importante ver ou saber que o patrimônio (mesmo que virtual) realmente está em algum lugar. Uma ideia estranha pois isso não tem necessariamente haver com o que eles necessitam para se manter biologicamente íntegros (já que são feitos desse tipo de estrutura aquosa). Usavam esse "dinheiro" para comprar coisas das quais não precisavam necessariamente entende? Não vou me alongar sobre essa questão do que eles adquiriam pois, sinceramente, muitos destes "itens" nem eu mesmo sei que utilidade tem.

Voltando ao dia do rapto, como já disse, o rebuliço foi grande mas logicamente durou pouco. Eles não poderiam ficar por ali muito mais tempo de qualquer forma, afinal Laryn IV já não tinha mais expectativa sequer de 8 mil anos mais (na escala do evento-tempo deles). Se eu me lembro bem tentaram avisar os governantes principais de cada território (territórios são tipo espaços onde cada um desses grupos de terráqueos se dividiam para ter poder e controle sobre os próprios recursos - uma grande bobagem também pois no fim das contas todos trocavam entre si o que produziam usando o tal dinheiro, eles chamavam isso de fronteiras, se mataram por elas inclusive em diversos momentos).

Quando Burum (nosso buraco negro de referência para espaço-tempo) emitiu a primeira frequência convertendo massa engolida em radiação, essa foi a hora que o bicho pegou. Foi cogitado acessar a atmosfera por meio de "naves", "discos" e outras coisas que já estavam no imaginário deles. O Chanceler Laruk achou que isso iria, sei lá, produzir menos eventos que gerassem emissão de químicos naturais promotores de comportamentos agressivos e, por consequência, que levassem a algum tipo de ação coletiva não catalogada ou prevista pelos simuladores. No fim, apesar dos bons argumentos optou-se por usar fendas dimensionais. O protocolo foi então seguido com bastante sucesso. Lote a lote todos foram sugados por fendas do tipo Rex em seu modelo simples. Estas foram projetadas para interferir o mínimo possível na estrutura e composição corporal de cada indivíduo. Esse desafio foi complicado, pois todos sabemos que o entrelaçamento quântico ainda não é um fenômeno entendido por completo. No processo alguns se perderam. "Perder" aqui significa a exterminação do indivíduo mesmo. Esses tiveram, na sua linha de espaço-tempo, aquele "momento" de existência findado. A grande maioria, 99,03% foram aproveitados. Menção aqui também ao recém aprimorado método de previsão LarxTend que, mesmo com todas as interferências, deu evidências de que ao ser utilizado com a DataBased pode chegar muito próximo da previsão tolerável em eventos caóticos-uniformes. Fui informado de que antes da coisa ser consumada ele previa taxa de sucesso de 98,912%. Um resultado impressionante.


Zany está agora, nesse minuto, em processo de adaptação com seus novos moradores. Humanos sentem MUITAS, sério mesmo, MUITAS necessidades fisiológicas. Nesse mesmo sentido se reproduzem MUITO rápido. Talvez esse seja o próximo grande problema do comitê da Corporação Espacial que cuida disso: Ficar lá com esse novo zoomanológico. Prover estrutura para que sobrevivam de forma sustentável não é fácil, eles não aprendem como nós. Até a última vez que eu tive notícia iam tentar implementar em algumas cobaias o implante de senso de que o início das resoluções começa pela valorização da harmonia. Eles são as vezes muito carnais e por isso perdem o foco. Trazem isso lá das suas primeiras matrizes irracionais, os símios. Acham que a interação entre dois para reprodução (ou apenas por prazer) (seja lá qual combinação de sexos for) é em muitas vezes mais importante que todo o resto. Esse, um aspecto a mais, mas não único, às vezes se sobrevaloriza em suas personalidades, levam embora aprendizados importantes em suas curtas vivências desenhadas para inevitáveis e breves passagens pelo espaço-tempo. Já fomos assim muito lá trás também, hoje sabemos que exigir dos indivíduos algo que estes não tenham capacidade de prover é sadismo, gera prejuízos muito maiores para a formação social como um todo. Estou acompanhando de perto os estudos lá em Zany. Vou tentar um estágio assim que terminar a Academia de Transferência. Tenho muita curiosidade neste assunto, quero muito obter esse conhecimento, sistematizá-lo e inseri-lo como novo tópico na DataBased. Quem sabe fora do setor HAL12 existam ainda galáxias com planetas bem parecidos aos de Laryn IV. Seria um excelente embasamento para futuros aventureiros dessa temática, hoje pouco explorada.

Se tiver qualquer outra consideração sobre o tema peço que me avise. Já estou terminando de construir meu projeto para mandar a Corporação Espacial. E obviamente, estou aceitando ajuda! :)

Espero seu contato!

Grande Abraço
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Liet-Kynes
Planetólogo (Base Intergaláctica XyX - Implante adendo 2)
Sociólogo de civilizações ermas (Base da Corporação Espacial - Disco implante Dr. Hasimir Fenring)

PS: Posso ter me confundido um pouco quanto as unidades de tempo, espaço e evento. Historicamente são umas pra nós e historicamente são outras pra eles. Já me desculpo por eventuais erros.


Obrigado por ler esse texto!
Grande abraço!