terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Vampiros e hábitos

Ciniro Nametala - Escrito na madrugada de 22 de Dezembro de 2015 em Medeiros, Minas Gerais.

Como está sua vida hoje? Já parou pra pensar nisso?

Quando digo "hoje" não estou falando do seu humor nesta semana, me refiro ao seu estado emocional atual levando em conta tudo que você tem passado nos últimos tempos. Como está sua vida (segundo você mesmo) quando você encara a sua situação como resultado das ações e decisões que você teve nos últimos quatro ou cinco anos?

Uma das coisas que tenho percebido nos meus últimos anos é que meus sonhos têm se realizado. Não só os meus mas também os sonhos de muitas pessoas com idades próximas a da minha, pessoas que me rodeiam. Todo mundo têm conversado muito sobre o que quer fazer no futuro, planos, tem conversado sobre possibilidades, investimentos, vêem estrada no horizonte. Na verdade, não só isso, tenho percebido um processo muito mais interessante: As pessoas que tem conversado sobre sonhos realizados são as mesmas pessoas que nos últimos tempos tiveram pequenas conquistas, sonhozinhos menores aparentemente sem importância mas que fizeram modificações incríveis.

No início desse ano quando passei pela primeira vez pela porta da frente da UFMG na avenida Catalão, confesso que me perguntei sobre que tipo de desafio me esperava. Da entrada até a sala de aula são 20 minutos a pé, como nunca tive carro, fui refletindo. Fiz isso três vezes por semana, todas as semanas no último ano. Mas naquele dia em específico, até então, apesar de já ter passado por muita coisa e ter tido inúmeras pequenas vitórias, eu por algum motivo não me achava no direito de bater de frente com o desafio. O meu âmago que teima em ser burramente religioso questionava a Santa Luzia se a mim havia sido dado uma tarefa qual não poderia cumprir. "Você é tecnólogo" falaram com os olhos, algumas vezes com palavras. "Você não teve cálculo 3", "Você não estudou em uma universidade de ponta", "Você não se encaixa", "Mas você não fez isso", "não fez aquilo", "te desejo SORTE"... muitas vezes eu mesmo me falei todas essas coisas sem ninguém me falar nada. Infelizmente a gente acaba acreditando. A gente duvida. Mas é tudo mentira se você decidir que será.

Incluindo a mim mesmo na conta, cansei de contar dezenas de almas que se habituaram a duvidar. Gente boa amarrada em corrente de plástico. Gente adestrada a parar de crescer, gente que foi convencida de que não dá, não pode, não rola. Vi conscientemente almas que eram capazes de tudo, mas por viverem ao redor de gente que toliam seus sonhos, simplesmente não conseguiam nada. Algumas não conseguem até hoje, aprenderam a duvidar e agora precisam ser convencidas do contrário, a ordem comum foi invertida. O ciclo vicioso é tão forte que a pessoa cria suas próprias justificativas para não se mexer mais. Já infere que não dá, sem nem testar. Vira uma mãe Dinah do azar prevendo seu próprio futuro estático. E por já "saber" o que vai acontecer no futuro, no presente nada faz, logicamente ela acaba acertando, afinal não levantou a bunda da cadeira em momento nenhum pra mudar nada.

Como professor uma das coisas mais bonitas que você pode fazer é alimentar sonhos. Muitos não pensam assim e, pra mim, minar a crença de um sonho que pode ser realmente alcançado é uma das maiores covardias que se pode fazer a alguém, especialmente se você for bom nisso. Primeiro que a pessoa prejudicada nunca vai entender o que aconteceu (afinal seu sonho nunca será realizado) e, depois, como não percebe o vampiro do lado, continua a andar com ele, vai dando seu sangue de forma homeopática por anos a fio. Identificar vampiros é tarefa difícil mas fundamental pra conseguir as coisas. Vampiros são pessoas pequenas, gente que para se manter grande (do seu próprio ponto de vista) usa como tática fazer esforço para impedir que outros cresçam. E sabe qual motivo leva vampiros a se empenharem nisso ao invés de investir no crescimento próprio? Se empenham nisso pois minar sonhos não exige inteligência, assim acabam cumprindo seu papel.

Para não ser atacado de forma crônica é preciso entender que, antes de tudo, você precisa mudar algo e para isso precisa se mexer pra começar a mudar tudo. Mudanças que vem de coisas pequenas, pequenos hábitos que te levam a pequenas vitórias, que te fazem acreditar que vitórias maiores são possíveis e, depois disso, os sonhos realizam-se. Mas primeiro é preciso fazer alguma coisa, mesmo que minúscula. É simples, veja bem, se você não gosta de algo.. mude então! Se você não gosta do seu trabalho... saia do seu trabalho! Está faltando tempo? Saia do facebook, saia do Whatsapp, pare de ver TV, acorde mais cedo! Você está procurando o amor da sua vida e não encontra? Pare de procurar e vá fazer as coisas que você gosta, provavelmente é  nessa hora que você irá encontrar! Quando for comer, aprecie até a última mordida! Decida mudar qualquer coisa!

A vida, por mais que não pareça, pode ser simples. Ande de bicicleta, jogue bola com os seus filhos, acorde cedo e tome um banho gelado. Comece a abraçar. Abra sua mente, braços e coração pra coisas novas! As pessoas estão unidas antes de tudo nas diferenças, quem sabe uma coisa sua completa o que falta em outro lugar? Viaje com frequência, se coloque em situações em que você não sabe agir direito, entenda que se perder muitas das vezes é o que nos ajuda a se encontrar. Isso é importante pois certas oportunidades só vem uma vez e isso não é clichê de mensagens que sua mãe compartilha no facebook. A vida não é sobre as coisas que você cria para atrair as pessoas e sim, o contrário, é sobre as pessoas que você encontra e as coisas que você cria com elas. Se você não interagir, nada será criado! Então interaja e comece a criar agora!

É um alívio perceber algo tão simples da vida, acho que neste ano ver isso tão claramente foi minha maior conquista individual. É muito bom descobrir que você pode fazer quase tudo que desejar se você resolver passar por cima dos vampiros e maus hábitos que te cercam. As vezes uma caminhada de 20 minutos, três vezes por semana, em meio a um turbilhão de exigências acadêmicas já serve. Pra finalizar queria dizer que sobre o tempo que perdemos fazendo nada pra mudar, muito explica a frase do Antoine de Saint-Exupéry: "O que se leva dessa vida é a vida que se leva e nada mais". Você escolhe a vida que irá levar. Decida agora, no minuto que acabar de ler esse post, que 2016 será o MELHOR ANO DA SUA VIDA! Levante a bunda da cadeira, vá lá e faça isso ser verdade! Mostrar pra todo mundo que dá só depende único e exclusivamente de você. Não acredite no que dizem os vampiros! Pare de pensar em justificativas! Comece pequeno e vá andando um passo de cada vez, uma hora a recompensa chega.



------
Parte das palavras dos parágrafos anteriores eu vi em um vídeo [1]. Misturei com a imagem que ilustra esse post. Fiz isso pois acho que elas tem tudo haver depois de um ano de muito trabalho e grandes sonhos que começam a se realizar.

[1] https://www.youtube.com/watch?v=sOV0X_eWlyg

Obrigado por ler esse texto!
Grande abraço!

sexta-feira, 26 de junho de 2015

O pretérito imperfeito e a Máquina de Lavar

Ciniro Nametala - Escrito na noite de 26 de Junho de 2015 em Belo Horizonte, Minas Gerais.

Era uma vez um homem que sairia para andar de bicicleta. Juntou todo o lixo que estava na área de serviço há dias, sentiu o cheiro de cada saco preto e com nojo, os amarrou a contra gosto. Era uma terça-feira a tarde, ali pelas cinco, o dia não prometia mais nada nesse horário, nem expectativa, nada.

Ele se levantou não mais sentindo cheiro de lixo, notou a janelinha sempre aberta por onde entrava uma brisa mansa e fresca. Sentiu prazer naquilo. O fez lembrar que o clima ali era bom, bem melhor que o inferno escaldante por onde havia passado não fazia mais que seis meses. O saco de lixo era leve, mas havia um pouco de água choca no fundo, ruim de carregar.



A máquina de lavar ficava ao lado, ela estava com a tampa aberta, ele recolocou os sacos no chão e fechou a tampa. A máquina tinha nove programas de lavagem e aguentava um edredom se precisasse. Sua mãe havia mandado comprar aquela justamente por isso. Foi um pouco caro. Ele sentiu orgulho de ter uma máquina de lavar com qualidade tão esmera. Um sentimento que nutria também de forma muito semelhante pelo seu filtro de barro São João. Dava pra ver o filtro daquele lugar, lindo, marrom, suculento. Um respeitável filtro de 45 reais.

Ele pegou novamente os sacos de lixo e por alguns segundos se pôs a caminhar quando ouviu um assobio, era a máquina de lavar chamando ele. A tampa subindo e descendo enquanto os botões programáveis giravam. O motor roncava levemente quando palavras saiam. A máquina queria alguma coisa. Ele recolocou os sacos no chão. Voltou até a área de serviço, olhou para a máquina e perguntou o que ela queria com ele. A máquina respondeu que estava cansada de tanta cueca. 

Caiu um silêncio, um clima desconfortável cobriu como manta o momento ali vivido por dono e seu objeto. Ele por muito pouco não sentiu pena da máquina, até que citou pra ela o caso da lava louças que nunca reclamava de nada e trabalhava muito mais. A máquina ficou furiosa, para ela a lava louças era como uma irmã mais nova chata que só lavava pia. A lava louça não tinha sequer feito aniversário de um ano naquela casa e já estava se achando a rainha da cozinha. O sonho da máquina de lavar era ver a lava louças torcendo uma dezena e meia de calças jeans encardidas, não mais ou menos encardidas, encardidas de acordo. Mas impotente, coisa dessas ela já sabia triste que, nunca deveras, aconteceria.

A máquina entretanto queria uma posição. Roncou mais alto pedindo então pra lavar só pano de prato. Argumentou que o conjunto do todo que compõe uma cozinha não suja tanto. Dialogou em palavras complexas, gastou seu vasto vocabulário, exprimiu sua opinião fazendo valer a dignidade conquistada depois de anos de trabalho. A máquina só não fez cara de coitada pois isso ela não admitia, era um pouco orgulhosa e, somente por isso, manteve a postura na conversa. (Na verdade isso era uma coisa de marca que ela achava ser a melhor do mercado, mas não cabe aqui essa parte)

O homem não queria mais ouvir a ladainha e ensaiou colocar a máquina no seu devido lugar de linha branca, coitada com IPI reduzido, comum posse da classe média. Entretanto ele percebeu que lá no fundo a máquina só queria mesmo era um pouco de apreço. Pouco toda aquela conversa tinha haver com suas cuecas. Ficou com dó. Refletiu então e decidiu ceder um pouco na discussão. Decisão que também foi motivada pelo fato de que praticamente tudo envolta no lugar já estava prestando atenção. Até o filtro.

Ele abaixou a cabeça um pouco de lado, fez cara de sério mas com certa condescendência. A máquina já tinha percebido nessa hora que havia ganhado aquela briga. O homem foi lá, pegou o cesto de roupas, jogou tudo dentro de um balde com água sem sabão, esfregou ali uns minutos como estava mesmo. Tirou tudo, saiu andando sem olhar na cara da máquina, passou pela lava louças que amedrontada piou um fino bip, foi até a sacada na varanda onde pendurou tudo. Voltou pra cozinha, pegou os sacos de lixo, desceu pelo elevador, jogou tudo fora, pegou sua bicicleta e passeou por uma hora e 20 minutos sem suar a camisa, estava frio. 

Já era sete horas quando voltou.

Na garagem ele trancou a magrela quando ouviu gritos estranhos, adentrou correndo em seu cortiço! Isso não era coisa normal, tinham dito pra ele que ninguém ali era escandaloso. Um lugar cheio de pessoas boas, respeitáveis, educadas, cumpridoras do seu esperado papel cristão na sociedade. Ademais disso, quando ele olhou pra cima, viu a máquina na varanda urrando igual uma cabrita. Ela se debatia em prantos e rolava de um lado pro outro. Sem esperar, lá de baixo mesmo, o dono gritou perguntando pra ela o que estava acontecendo. Qual motivo levaria a tamanho escândalo e piti em público. A máquina então disse que a polícia viera nesse ínterim da bicicleta, derrubara a porta e, sem dar maiores explicações, levara todas as cuecas embora. 

Após subir as escadas, entrar no apartamento e ir até a varanda o homem parou. A cena era lastimável. O varal acabado, triste, solitário. Só os aros de ferro tremendo que nem Cruzeiro em jogo com o Galo. A máquina ali no canto desesperada gritando. As três banquetas que ficavam ali para os fumantes, que em geral mal tinham contato com as cuecas, também não se aguentavam de chorar. Um momento realmente triste. 

Não tinha muito o que fazer. Ele consolou a máquina, o varal e as banquetas. Voltou a cozinha e explicou pra todo mundo o que estava pegando. Mas no fundo ele achou um pouco bom. Todos entenderam que enquanto reclamava a máquina não sabia da importância de lavar cueca, ela não entendia que o propósito da sua vida era um pouco disso também. Chiava, fazia cara feia e torcia os botões, mas nunca tinha parado pra pensar na importância do seu papel naquela casa lavando cueca. Só entendeu quando tiraram dela uma coisa que no fundo ela gostava muito de lavar todo dia.

O dono então, e para acabar com a história, queria pelo menos tirar satisfação com alguém, nem que fosse pra vingar a máquina. Foi procurar a polícia. Depois de conversar bastante descobriu que era a lei. Fazer o quê. Regras do cortiço.

O estrago estava feito, o máximo que pode fazer depois disso foi passar o varal pra dentro.

Obrigado por ler esse texto!
Grande abraço!

quarta-feira, 11 de março de 2015

A importância do ceticismo

Baixa escolaridade e muita religiosidade pode ser uma boa combinação para gerar ignorância, especialmente em países subdesenvolvidos como o Brasil.

Todos os anos vemos charlatões ganharem muito dinheiro com o pouco senso crítico do povo. São desde igrejas que realizam curas e vendem milagres, passando por práticas espíritas, toda a sorte de tipos de aplicação da astrologia, até fantásticas "descobertas científicas" como a mostrada na reportagem do SBT em seu jornal da tarde que segue. No vídeo abaixo, o cara diz que inventou um carro movido a água com adaptações feitas por ele mesmo no motor. E muita gente acredita! O SBT aparentemente acredita.

Homem que "descobriu" uma forma de abastecer seu carro com água realizando modificações num motor que gera hidrogênio - Reportagem do Jornal do SBT.

O mais interessante é que não só o SBT, mas toda a TV brasileira também segue a linha, afinal o povo emburrecido compra! Em outras palavras, para se promover e sabendo que isso tudo dá IBOPE existe um tratamento dos fatos como se fossem esses reais, vide também os famosos casos dos ET´s Bilu e de Varginha. Esse último inclusive (ET de Varginha) mexeu bastante com a sociedade numa época em que a ignorância parecia ser muito maior. O povo comprava ainda mais fácil que hoje. Pode ser que se você ver as reportagens da época agora, alguns anos depois, você se perguntará "Como alguém podia acreditar nisso?". Na época, também aparentemente, era muito mais fácil fazer as pessoas engolirem qualquer história. Não obstante os níveis de escolaridade eram bem mais baixos nesse período em comparação a hoje.

Na verdade esse fenômeno da enganação acontece de forma mais e mais sofisticada conforme o tempo passa. Por exemplo, até que James Lind realizasse em 1747 um dos primeiros ensaios clínicos da história para averiguar as reais causas do desfalecimento de marujos em longas viagens pelo mar e assim, descobrir que a falta de vitamina C causa sérios problemas ao organismo, todo mundo acreditava que o sal apodrecia as pessoas [1]. Oras, o sal não apodrece metais, madeira e outros diversos materiais? É lógico então pensar que também apodrece humanos. Para a época era óbvio! Hoje é só engraçado.

Primeira reportagem sobre o ET de Varginha exibida após o caso ter ocorrido em Minas Gerais - Reportagem do Fantástico da TV Globo.

Reportagem sobre o suposto ET Bilu, um ET Brasileiro. Reportágem da TV Record.

Contudo, como cita Carl Sagan, um famoso astrofísico americano: "Eventos fantásticos exigem evidências fantásticas". Mas para para vincular um incrível fenômeno a uma incrível evidência são necessários métodos rigorosos. Poucas pessoas se perguntam quando assistem televisão ou leem algum portal de notícias sobre qual o método [2] utilizado para comprovar os fatos que eles estão ali assistindo. Simplesmente engolem a história só por esta estar sendo veiculada na TV ou no jornal. E por julgarem verdade começam, em muitas das vezes, compartilhar tudo nas redes sociais com dizeres de "Parabéns", "Incrível", "Isso o governo não vê", "Para quê escola?".

Escola justamente para que você não compartilhe e nem acredite neste tipo de besteira!

Só para ilustrar, nos EUA existe uma fundação chamada JREF[3], foi criada por um ilusionista que construiu sua reputação trabalhando com embasamento científico e um rigoroso método de comprovação de hipóteses, seu nome é James Randi. Essa fundação mantém há 30 anos um desafio chamado "Desafio do 1 milhão". QUALQUER um que, sob o método empregado por ele, conseguir comprovar QUALQUER atividade de cunho paranormal ganha 1 milhão de dólares, simples assim. Você vai lá, faz levitar um objeto com a mente ou se comunica com um espírito e pronto, um milhão na sua conta. Nem preciso nem dizer que ninguém conseguiu até hoje pôr as mãos nesse dinheiro. E nem vai pôr, afinal, paranormalidade é uma grande besteira, como também é besteira as cirurgias espirituais feita por "hospitais" espíritas como os do médium João de Deus mostradas no próximo vídeo.

Caso famoso, inclusive internacionalmente, do médium João de Deus que realiza cirurgias e curas espirituais.

João de Deus fez fama e sucesso, apareceu em TV´s do mundo todo com seu método de extrair tumores e outros males realizando cirurgias sem materiais próprios, sem cortes e sem anestesia. Excursões são organizadas para ir até o seu centro espírita. Milhares de pessoas em busca de cura. O negócio é tão bem organizado que existe tudo! Gente que dá depoimento falando que está curada, um lugar com pintura clara e fotos antigas pelas paredes, todo mundo se veste de branco, existe uma farmácia que receita passiflora (comprimidos de maracujá que você pode comprar em qualquer farmácia), existe forte apelo religioso e, claro, a figura icônica dele próprio e de seus auxiliares - como anjos. Comum é perceber, até pelas reportagens, que grande parte das pessoas que consomem os serviços são pessoas de mais idade ou de baixa renda (escolaridade e religiosidade). No mais, essas cirurgias não são populares só no Brasil, mas em vários países do mundo. James Randi, o dono da fundação que citei a pouco, mostra como essas cirurgias espíritas feitas a frio, sem dor, são realizadas. Ele aprendeu a fazer, ele encontrou charlatões que lhe ensinaram e assim, no vídeo a seguir mostra exatamente, passo a passo, como é o método.

Como realizar uma cirurgia espiritual. Documentário da Fundação James Randi.

Muitas pessoas justificam essas práticas dizendo que, apesar dos pesares, essas pessoas dão esperança a quem está doente.

"Há.. mas eles pelo menos ajudam muita gente..."

Vale citar aqui o famoso caso do respeitado pastor americano Kenneth Hagin. Tanto ele, quanto sua irmã e seu genro, morreram de câncer e o último de doença do coração jurando terem sido curados pela fé [4]. Esse não é um caso isolado, no Brasil líderes religiosos como Edir Macedo, RR Soares, Valdemiro Santiago e Silas Malafaia vendem curas em suas instituições TODOS OS DIAS, inclusive na TV, lugar onde as pessoas passam a acreditar nessas coisas. Não existe estatística, em lugar nenhum, para o número de pessoas que morrem achando que já estão curadas pela fé. Nossas leis, nesse sentido, permitem que você procure um hospital ou uma igreja se ficar doente, você é quem sabe. O problema é que nestes casos a falta de educação leva a pessoa a se tornar um fervoroso cego e por consequência, a leva também a consumir esses serviços de cura falsa.

Certa vez uma pessoa muito religiosa me disse que eu não estava ainda preparado para conseguir entender esse processo de cura pela fé. Diante do que vejo, entendo que nunca vou estar. Outra pessoa com perfil bem parecido me disse também em outra ocasião que da fé não preciso esperar explicações. A ladainha é sempre a mesma, o que não muda é o ciclo da coisa: Um esperto inventa, um bobo acredita, o esperto ganha dinheiro e o bobo perde!

O carro movido a água não tem nada de diferente das cirurgias do João de Deus (que inclusive não optou por "cura espiritual" quando teve câncer. Ele foi a um médico de verdade! [5]). A linha entre fé e ignorância é muito tênue, por isso, um pouco de ceticismo e educação não faz mal a ninguém.

[1] https://microciencia.wordpress.com/2011/03/31/james-lind-1716-94-e-o-primeiro-ensaio-clnico/
[2] http://undsci.berkeley.edu/article/intro_01
[3] http://web.randi.org/
[4] http://www.letusreason.org/wf25.htm
[5] http://g1.globo.com/goias/noticia/2015/09/internacao-de-joao-de-deus-em-sp-faz-movimento-cair-em-abadiania-go.html
Obrigado por ler esse texto!
Grande abraço!

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

É só um queijo?

Ciniro Nametala - Escrito na tarde de 13 de Fevereiro de 2015 em Medeiros, Minas Gerais

Dizem que quem nasce em Medeiros e região, depois do leite materno, prova logo com apenas alguns dias de vida um pedaço de Queijo Canastra. Só um pedacinho. O boato poderia ser julgado um exagero ou até uma mentira, mas eu nasci aqui, como é que eu vou mentir pra você que está lendo isso? 

É a mais pura verdade!

Essa verdade e várias outras são apenas parte de tantas que compõe uma das culturas mais ricas de Minas Gerais, a cultura vivida e mantida pelas cidades da Região da Serra da Canastra.

O carro de boi, o fogão á lenha, a panela de ferro, o lampião, o chão de cimento batido avermelhado, o forro de palha no teto, o assoalho de madeira pouco encerado, o filtro de barro, o rádio pendurado no barracão, cachorros, galinhas e gatos espalhados no quintal, as flores ao redor da casa, o litro descartável na ponta de uma vara de bambu pra apanhar manga, os pesinhos enferrujados daquela balança velha na varanda, o ferro de passar usado como jarro, o pão de queijo do forno de barro, o melhor pangaré, a bica d´água, o bambuzal antes da porteira, o paiol, o chiqueiro, o galinheiro, a atividade às 5 da madrugada, a conversa depois da janta às 6 da noite, o sono tranquilo, a fé dela, o cigarro de palha dele... isso, aquilo, isso, aquilo, isso, aquilo....

Eu morei na roça só até os 3 anos de idade, ou seja, praticamente nunca morei na roça (se considerarmos também que a "cidade" de Medeiros não é uma), mas como quase todo mundo aqui da região, tive um avô, um tio, um primo, na verdade um pedaço da família que leva cada um dos detalhes que citei acima muito a sério. Eu, sem nunca ter morado na roça, só por ser medeirense, canastropolitano, poderia citar inúmeros outros detalhes, ficaria aqui até amanhã. Quem vive essa cultura é detalhista, cada metro quadrado de uma roça daqui, eu garanto a vocês, possui um pingo de fuçança, um retoque pra deixar tudo personalizado. Com cara de queijo.




O tempo passa, os filhos cada vez menos querem dar sequencia a essa cultura. Todos vêem como o trabalho é pesado. Manter uma fazenda no prumo é serviço pra administrador de empresa que não ganha diploma, a faculdade dura pra sempre, as aulas são 24 horas, tem prova todo dia e a professora...  a professora é a Dona Vida.

Vejo minha mãe contar histórias dos tempos em que ela morava na fazenda e a sensação que tenho, sempre que ouço uma delas, é de que eu estava lá. Parece que eu fiz queijo a vida toda! Cada queijeira que eu entro, não importa de quem é a fazenda, me faz lembrar da minha casa. É muito sossego. Já foi muito mosquito antigamente, hoje inseriram o padrão de exportação. Padrão que está fazendo do Queijo Canastra uma coisa muito grande, assustadoramente grande. Está quase francês, me assusto quando algum conhecido produtor diz que o queijo dele possui um terroir diferenciado. A onde está indo essa roça?

Está na TV, no rádio, no jornal, na revista e na internet. Esse negócio de queijo estava tão quieto e bem acomodado ali no canto, que quando o pessoal daqui começou a montar uma cooperativa, a se preocupar com a qualidade do produto, nem sei se eles sabiam bem que tamanho esse queijo tinha. Tudo aconteceu de forma mais redonda do que imaginavam. Como cidadão que nunca morou na roça, mas comedor de queijo, eu sinto muito orgulho de ver essa cultura ser tratada como merece. Ela vai perdurar pra sempre, não tenho dúvidas.

Mas daí a a gente se pergunta: Como que dura para sempre? É só um queijo? 

A resposta é fácil, o negócio não é só um queijo, se você chegar bem perto e olhar direitinho vai ver que ali no meio daquela massa curada tem um monte de coisa misturada, tem a mão do meu avô, o cara que quase morreu buscando vaca, a plantação de milho que não foi bem esse ano, o palmito arrancado no pasto, a rua nova que abriram lá embaixo, a missa que atrasou hoje, o cientista jacu que entrou na queijeira pra pôr defeito ontem, a política pra prefeito esse ano, o gole de pinga jogando sinuca, a sanfona chata mal tocada, a chuva que atrapalhou o carnaval... um monte de detalhes separados por vírgula que fazem da sensação de escrever este texto algo bem parecido com um pedaço de queijo, gostoso até não parar mais.

------------------------------
Pessoal, escrevi esse texto pois vi hoje no facebook (ainda não conhecia) um site que lançaram sobre o Queijo Canastra. Esse site mantém também um canal no youtube com vários vídeos contando um pouco da história da região, do queijo e das pessoas que produzem a nossa cultura. É muito bem feito e informativo. Sugiro a todos conhecerem. Seguem os links aí abaixo.

As fotos desse post foram feitas na fazenda do Adriel, Toin e Vilma no Córrego Fundo.


Vídeo Institucional do Queijo Canastra:


Eu comendo um pedaço de queijo kkkkkkkkkk: