quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Extremo

Ciniro Nametala - Escrito na noite de 12 de Setembro de 2019 em São Carlos, São Paulo.

Não me venha com dois dedos de cerveja, pois eu quero beber a produção inteira junto com todo mundo só pra celebrar que nós existimos. Não me diga que isso é pouco e sem sentido. Não vai fazer sentido pra mim.

Não venha me pedir pra ver a brasa queimar aos poucos, por favor encomende o mais rápido possível uma bomba atômica pra ser jogada bem em cima das nossas cabeças. Eu não tenho mais paciência pra ter ansiedade. Eu não quero jogar jogos. Eu não quero comprimidos.

Esqueça que eu farei um artigo de 6 páginas, pois eu preciso escrever pelo menos 20 só pra nunca mais conseguir cortar palavras até que chegue em 12, pelo menos. Quero terminar cada parágrafo e perceber que eu precisei suar para escrevê-los.

Ah se eu pudesse andar dezenas de quilômetros por vales e serras, fazendo incontáveis curvas, pra nunca ter sequer ciência de que a linha reta é o conceito mais sem graça já inventado. Antes descer pelas escadas fazendo curvas do que se jogar em linha reta de cima do telhado.

Se for pra ser, tem que ser um casamento com festa que dure a semana inteira pois eu nunca fui bom em curtir só durante um sábado. Eu não pego telefone, eu não fumo seu cigarro e eu não bebo no seu copo, mas se eu fizer, deixa.

Não me apego ao fato de viver, mas levo tudo muito a sério. Cada um faz o que quer desde que não me obriguem a fazer nada. Eu não sou um esquerdista, sou um extremista de direita desconstruído até quase ser de esquerda.

Não aguento mais o pouco, cansei do monossilábico, cansei de economias, cansei do baixo carboidrato, cansei de pular as preliminares, cansei do ponto final esperto, cansei de dois dedos de cerveja. Eu quero muito, eu quero um discurso, eu quero gastar tudo que tenho agora, eu quero um prato de lasanha, eu quero a noite toda, eu quero ser subjetivo até ficar confuso, eu quero uma dose pesada, duas, três.

Eu quero sonhar muito alto.
Eu quero ir tão longe quanto minhas pernas conseguirem me levar.
Eu quero levar todo mundo comigo.
Eu me preocupo. Eu dou valor. Eu não sei ser diferente.

Eu sou o extremo. Eu quero o infinito e se possível pra sempre.



Obrigado por ler esse texto!
Grande abraço!

sexta-feira, 26 de julho de 2019

Carne ao vento

Ciniro Nametala - Escrito na hora do almoço de 25 de Julho de 2019 em São Carlos, São Paulo.

EPISÓDIO 1

Haviam tantas crianças soltando pipas no céu que um dia um menino sem pipa se perguntou
“Porquê dentre tantas tão bonitas, coloridas e livres, sem nenhuma aqui estou?”

Um garoto gordo, alto, de camisa listrada, cara amarrada, correndo veio em sua direção
“Você é muito esquisito, não tem pipa, não tem linha, não deveria estar aqui não.”

O menino triste, correu até ficar sozinho, parou ao lado de um laguinho, respirou e chamou a Deus
“Deus você poderia me dar uma pipa? Em troca todos os frutos da minha vida serão seus.”

Fez-se silêncio e Deus não respondeu, mas um sapo que ouvia tudo de uma pedra logo se atreveu

“Garoto, largue de ser bobo, o que lhe falta não é uma pipa e sim saber fazê-la,
sem chorar, arranque do seu corpo sua pele, pegue uma linha e nela martele,
limpe o sangue do seu torso exposto, coloque um sorriso no rosto,
sobre a dor não pense no quanto, volte correndo pro campo,
procure o garoto gordo, faça com ele um acordo,
vire seu amigo, encontre nele um abrigo,
esqueça qualquer perigo,
não é um castigo."

Assim o garoto fez, confiando completamente no sapo, urrou de dor quando a pele saiu, a sua pipa era feia, mas enfim ele conseguiu.



EPISÓDIO 2

Ao chegar no campo, engolindo o choro, o menino fez subir pelos céus sua própria carne ao vento
“Olha gente tem um garoto novo no parquinho, que papagaio diferente, é bonito mas nojento.”

O garoto gordo se aproximou, com desdém analisou, questionou se era mesmo aquilo uma pipa
“Você é muito esquisito, sua pipa não tem cor, não tem rabiola, balança torta, parece uma tripa.”

O menino aceitou seu destino, viveu dessa forma até que um dia pegou uma infecção e foi ao médico
“Homem você não deveria ter feito isso, é patético, você não sabe soltar pipa e isso é genético.”

O homem então lembrou do sapo, entendeu o acontecido, questionou o médico sobre o futuro

“Você não pode repor sua pele, ela acabou, a infecção só dá pra tratar, não dá pra te tirar desse apuro,
o que você pode fazer é levar sua vida, limpar sempre sua ferida pra tentar evitar recaída,
pra cura acontecer você deve estar disposto a se afastar das coisas que lhe fizeram adoecer,
evite frequentar o parquinho, se afaste sempre do sapo no laguinho,
aprenda tudo de novo do começo como se fosse um aprendiz,
se reconecte com o que é a sua raiz,
tente todos os dias ser feliz,
junto dessa cicatriz."

Assim o garoto fez, confiando completamente no médico, urrou de dor quando deixou de ir ao parquinho, mas foi feliz ao entender o valor maior de se estar sozinho.

Obrigado por ler esse texto!
Grande abraço!