sexta-feira, 26 de julho de 2019

Carne ao vento

Ciniro Nametala - Escrito na hora do almoço de 25 de Julho de 2019 em São Carlos, São Paulo.

EPISÓDIO 1

Haviam tantas crianças soltando pipas no céu que um dia um menino sem pipa se perguntou
“Porquê dentre tantas tão bonitas, coloridas e livres, sem nenhuma aqui estou?”

Um garoto gordo, alto, de camisa listrada, cara amarrada, correndo veio em sua direção
“Você é muito esquisito, não tem pipa, não tem linha, não deveria estar aqui não.”

O menino triste, correu até ficar sozinho, parou ao lado de um laguinho, respirou e chamou a Deus
“Deus você poderia me dar uma pipa? Em troca todos os frutos da minha vida serão seus.”

Fez-se silêncio e Deus não respondeu, mas um sapo que ouvia tudo de uma pedra logo se atreveu

“Garoto, largue de ser bobo, o que lhe falta não é uma pipa e sim saber fazê-la,
sem chorar, arranque do seu corpo sua pele, pegue uma linha e nela martele,
limpe o sangue do seu torso exposto, coloque um sorriso no rosto,
sobre a dor não pense no quanto, volte correndo pro campo,
procure o garoto gordo, faça com ele um acordo,
vire seu amigo, encontre nele um abrigo,
esqueça qualquer perigo,
não é um castigo."

Assim o garoto fez, confiando completamente no sapo, urrou de dor quando a pele saiu, a sua pipa era feia, mas enfim ele conseguiu.



EPISÓDIO 2

Ao chegar no campo, engolindo o choro, o menino fez subir pelos céus sua própria carne ao vento
“Olha gente tem um garoto novo no parquinho, que papagaio diferente, é bonito mas nojento.”

O garoto gordo se aproximou, com desdém analisou, questionou se era mesmo aquilo uma pipa
“Você é muito esquisito, sua pipa não tem cor, não tem rabiola, balança torta, parece uma tripa.”

O menino aceitou seu destino, viveu dessa forma até que um dia pegou uma infecção e foi ao médico
“Homem você não deveria ter feito isso, é patético, você não sabe soltar pipa e isso é genético.”

O homem então lembrou do sapo, entendeu o acontecido, questionou o médico sobre o futuro

“Você não pode repor sua pele, ela acabou, a infecção só dá pra tratar, não dá pra te tirar desse apuro,
o que você pode fazer é levar sua vida, limpar sempre sua ferida pra tentar evitar recaída,
pra cura acontecer você deve estar disposto a se afastar das coisas que lhe fizeram adoecer,
evite frequentar o parquinho, se afaste sempre do sapo no laguinho,
aprenda tudo de novo do começo como se fosse um aprendiz,
se reconecte com o que é a sua raiz,
tente todos os dias ser feliz,
junto dessa cicatriz."

Assim o garoto fez, confiando completamente no médico, urrou de dor quando deixou de ir ao parquinho, mas foi feliz ao entender o valor maior de se estar sozinho.

Obrigado por ler esse texto!
Grande abraço!