terça-feira, 18 de maio de 2021

Como me tornei humano

Ciniro Nametala - Escrito na noite de 17 de Maio de 2021 em São Carlos, São Paulo.

Hoje é dia 17 de maio de 2021. Dia internacional da luta contra a homofobia.

Eu levei muitos anos, três décadas pra ser mais exato, para ter coragem de vir aqui hoje e escrever esse texto. Sinceramente, eu pensei nisso por muito tempo. Desde que aconteceu, há sete anos atrás, quando fui praticamente obrigado a me assumir como gay publicamente, eu não pensava em outra coisa. Ano após ano, eu sempre tinha esse plano de vir aqui e escrever tudo o que sempre foi necessário, mas eu postergava, eu tremia só de pensar na opinião das pessoas. Imaginava o meu futuro desmoronando, as piadas com meu nome em todas as rodas de conhecidos, o sentimento da minha família, o meu trabalho, a exposição que isso traria. Muitas dessas coisas, de fato, eu tenho enfrentado desde então. Pra ser sincero, me acostumei tanto ao receio, que este comportamento hoje, já tão automático, faz com que eu me sinta ansioso a cada vez que minhas mãos batem aqui neste teclado de computador pra digitar essas palavras.

O sentimento de medo é uma coisa muito difícil de lidar e muitas pessoas não sabem julgar bem o que é isso, pois simplesmente nunca viveram uma situação real que te coloque nesta posição. Não me refiro aqui ao medo passageiro. O medo do qual falo é o medo que te coloca em vigília, sem descanso, dia e noite. Passei tantos e tantos anos com medo, escondendo quem eu era, monitorando cada pensamento que eu tinha, cada comportamento, a forma de andar, a entonação da minha voz, as escolhas que eu fazia sobre tudo. Isso por três décadas a fio, todos os dias, da hora em que eu acordava até a hora de dormir – também não foram poucas as vezes em que eu sonhava com o medo. As vezes eu me pego desistindo de discutir e educar as pessoas sobre o que seria um pouco desse sentimento. Faço isso simplesmente porque realmente não consigo acreditar que eu teria condições de passar em palavras o que seria o mínimo necessário para que alguém tivesse ideia do que é isso. Do que é segurar a pesada, suja e feia máscara da mentira.

O ser humano é um ser social. Evoluímos num contexto competitivo onde ser aceito em tribo sempre foi necessário para a sobrevivência. Um indivíduo perambulando sozinho facilmente seria alvo de predadores. Isso não é uma exclusividade do ser humano. Inúmeros animais se comportam assim. Coisas que fazemos como a simples fofoca do dia a dia, são reflexo desta evolução. Deter a informação te faz importante ao grupo, se você é o que traz a novidade, então sua importância na tribo aumenta, logo, você prospera e sobrevive. Mesmo hoje, pessoas solitárias e que andam sozinhas são consideradas estranhas. Aprendemos a apontar o dedo na cara de pessoas assim a vida inteira. Nos treinamos uns aos outros para que nunca fiquemos solitários. É uma preocupação dos nossos pais a nossa aceitação em sociedade. Seja na escola, na igreja, na família, em qualquer lugar. Nós não estamos preparados biologicamente para lidar com a marginalidade. Estar a margem da sociedade dói e lutamos com todas as nossas forças, mesmo que inconscientemente, para sermos aceitos. O reflexo disso é que basicamente todas as nossas ações são medidas em termos de “quanto isso ou aquilo irá me prejudicar junto ao grupo em que vivo?”.

Lembro bem que já sabia da minha sexualidade desde a minha mais jovem infância. Não quero e não vou citar nomes aqui. No entanto, minhas primeiras cartinhas de amor lá na escolinha não eram só pra meninas. Talvez fossem pra meninas aquelas que as professoras seguravam minha mão e escreviam por elas. Já as que eu deveria desde moleque ter sido ensinado a escrever sozinho. Ah, essas não. A verdade é que você, mesmo muito criança entende tudo que está acontecendo a sua volta. No entanto, meninas dão a mão para meninos na fila, as aulas em que são ensinados os conceitos mais básicos fazem uma divisão de atividades entre os sexos. Lembro muito bem de que na porta da sala onde eu estudava havia recortado em cartolina o desenho de uma menininha em rosa e um menininho em azul. Os dois estavam de mãos dadas. Lembro-me bem de questionar se não poderiam haver dois meninos de mãos dadas. Faz décadas isso, mas eu nunca esqueci a resposta da professora: NÃO, É ERRADO.

Ser gay é uma opção tirada de você logo que você sai do útero da sua mãe. É uma mentalidade que vem a passos de tartaruga mudando, mas em sua massiva maioria, os pais (pelos mesmos motivos que os filhos) tem medo de que você seja quem você é. Especialmente se você for gay. Desde muito pequeno, você é ensinado a ser tudo aquilo que talvez você não seja, mas acima de tudo, é ensinado com A mais B de que ser gay não é uma opção. A religião, inclusive, tem um papel forte nisso. Não estou nem me referindo aqui ao óbvio de que ensinam que um relacionamento homoafetivo é proibido pela bíblia. Estou me referindo a todo o resto que, alguém heterossexual, dificilmente notaria. Logo bem cedo te levam para casamentos e festas de noivado, homem e mulher; seus primos e amigos organizando eventos com casais, homem e mulher; namorados sentados nos bancos das praças se amando livremente, homem e mulher; novelas e seus protagonistas, homem e mulher; as primeiras insinuações de adultos para que você desperte a sua sexualidade em relacionamentos entre, homem e mulher. A sociedade é construída em torno deste conceito e, tudo que vai contra ele, é, por sua vez, errado. O medo começa aí, logo cedo.

Acho difícil tentar retratar como pode ser complicado, para não dizer exaustivo, o que acontece quando os primeiros passos em relação a sexualidade começam a ser dados. Todos os seus amigos heterossexuais começam a se envolver em pequenas histórias. Você já tem noção do que está acontecendo com você, mas nesse momento, você precisa esconder. Uma defesa clássica é o uso de piadas homofóbicas. Piadas homofóbicas inclusive são ensinadas muito cedo para todas as crianças. “Sai fora viado”, “Cê é gay é?”, “Oua eu gosto é de mulher”, “Sua bicha”, “Vai dar o cu seu viadinho”. Ninguém nasce conhecendo esses insultos, eles são ensinados. E quando você é gay, você não demora a entender que esses insultos são exatamente para o tipo de pessoa qual você é. Uma personalidade da qual você não pode fugir. O medo então ganha força. Quando se é gay, o medo de ser notado é algo destruidor. O medo de ter que lidar com esses xingamentos faz com que você passe a utilizá-los como defesa. Nada mais clássico do que um gay homofóbico. Eu fui assim, por muito tempo. Ser homofóbico é uma forma eficaz de as pessoas verem em você algo que você detesta. E se você detesta gays, obviamente você então não é um deles, não é mesmo? Pela minha experiência, pessoas que se comportam assim, com exagero, fazem com que eu me lembre de mim mesmo no passado: Um cachorro covarde acuado morrendo de medo de ser descoberto.

Logo o tempo passa e você fica sabendo do primeiro beijo de alguém da sua sala. É um momento terrível. Existe uma pressão para que você faça o mesmo. Não somente entre os seus amigos, mas entre as meninas também, “Aquele ali é frouxo”. Entre seus parentes também, “E as namoradinhas?”. Nesse ponto você começa a achar que sofrer é normal. Tente imaginar você, heterossexual, tendo que beijar homens desde os 14 anos de idade, quando na verdade você gosta de mulheres. Já parou para pensar o estrago que isso pode causar na sua autoestima? Foi assim comigo. Você não quer. Você não tem vontade. Você não se interessa. Mas sempre vão encontrar alguma garota disposta. E nessa hora se você não cumprir o seu PAPEL DE HOMEM, então você será a bicha. Você será o viadinho filho da puta do qual todos irão se sentir no direito de esculachar, de tratar mal, de tirar sarro. Vão tirar o seu sono. Vão te humilhar. E se você for afeminado, muito possivelmente vão te bater. Em muitos dias você vai chegar em casa, vai se trancar no quarto ou no banheiro e vai chorar. Você não vai entender nada do que está acontecendo com você. A única coisa que você perceberá é que você não é normal. E, nesse sentido, o ódio vem. Você então se odeia.

Eu me considero um cara de muita sorte. Eu não tive trejeitos afeminados ao longo da vida. Até hoje não os tenho. Sou cis gênero. Eu tive o “privilégio” de poder esconder isso dentro de mim. O “privilégio” de poder fingir com sossego. No entanto, não é “fácil” assim pra todo mundo. Quem não se lembra daquele garoto afeminado do qual todos riam e faziam piadas? Quem não se lembra daquela colega machona que todo mundo chamava de sapatona? A adolescência pra quem é gay não é simples. E o mais terrível é que você, na maioria das vezes, vai passar por ela completamente SOZINHO. Obviamente que você não quer contar pros seus amigos. Em 36 anos de vida desconheço pais que passam aos filhos segurança o suficiente, a ponto de serem dignos de tal confiança. O que sobra é esconder, se tornar um homofóbico para tirar a atenção de você mesmo, aguentar as humilhações diárias se você for afeminado ou, ainda, se isolar. Independente do caso, acaba sendo sozinho. Você vai guardando as coisas. Lembro-me de uma passagem engraçada. Eu tinha 16 anos e morava em Araxá. Eu rezava todo dia para não ser gay. Eu pedia a Santa Luzia para que ela me mudasse. Talvez seja difícil conceber o que é forçar uma masturbação com pensamentos que não te despertam qualquer desejo por puro medo. Era isso que eu me esforçava para fazer. Eu queria mudar. Eu não tinha condição mental para aceitar o que estava acontecendo comigo. Não me esqueço do dia em que apaguei as luzes do quarto em que eu morava e disse pra mim mesmo em voz alta: “Ciniro você não está assim. Você é assim! Aceita.”. Tenho tanta pena daquele menino. Como eu gostaria de viajar no tempo hoje, entrar de supetão naquele quarto, acender a luz, sentar ao lado dele e lhe dar um abraço dizendo “Vai ficar tudo bem”. Esse foi o meu primeiro passo rumo a vitória sobre o primeiro obstáculo, talvez o mais difícil de todos: A auto aceitação.

A auto aceitação é um grande passo, mas ele não serve de nada se você não for aceito pelo seu grupo social. Por causa disso, eu acabei considerando e reconsiderando milhões de vezes o que eu iria fazer comigo mesmo. Nesta fase, sei que eu passei a determinar os meus gostos baseados no que eu achava que as outras pessoas pensariam de mim. Eu media meticulosamente cada coisa que eu fazia. Para ser aceito, você começa a cultuar um filme que não gosta, uma personalidade que odeia, uma banda que detesta. Começa a desenvolver hobbies que julga não serem o seu estilo, a conversar com pessoas que não suporta. Você começa a suportar pessoas. Nesse ponto a sua autoestima é tão sólida quanto uma gelatina fora da geladeira. Você começa a amar mais os outros do que você mesmo. O resultado disso é pedir desculpas para quem não as merece, tratar bem pessoas que sistematicamente te fazem mal, desconfiar de todo mundo a sua volta, e mais uma infinidade de traumas mentais complexos de explicar. No entanto, o comportamento do qual mais tenho aversão e arrependimento de ter desenvolvido é o fato de ter que ficar com mulheres para demonstrar para OS OUTROS que eu não era gay. Muito importante salientar aqui que não estou me referindo ao fato de ficar com mulheres, mas ficar com mulheres exclusivamente PARA MOSTRAR QUE VOCÊ NÃO É GAY. Todas as vezes que isso aconteceu, a consciência pesava. Principalmente nas ressacas infinitas, ressacas quais o mal estar do álcool passa, mas o peso da mentira fica. Obviamente que você se martiriza por estar enganando a menina que você ficou, os amigos a sua volta. São ilusões que você começa a alimentar para todo mundo e inclusive para você mesmo. E essas ilusões crescem, engordam e se tornam monstros insaciáveis. Monstros que devoram todos os dias cada gota de vitalidade da sua vida. No fim, pode acreditar, chega um dia que você se cansa. Você se cansa muito. Eu chegava a ter dores pelo corpo de tanta tristeza. No ápice do meu cansaço desenvolvi depressão e ansiedade. Eu pensei seriamente em me matar inúmeras vezes. Planejei suicídios, escrevi cartas. Eu literalmente não via um centímetro de futuro e paz a frente do momento em que eu me encontrava. Sem esperanças e parafraseando Renato Russo “vai ficando complicado e ao mesmo tempo diferente”.

Ao contrário do que muitos acham, ser gay não tem a ver com sexo. Ser gay tem a ver com capacidade de amar. Isso vale para qualquer orientação sexual. Pessoas em situação de confinamento fazem sexo homossexual em condições de carência afetiva – muito comum em presídios ou comunidades isoladas com poucos parceiros. Pessoas ficam alcoolizadas e se permitem ter experiências homossexuais mesmo sendo heterossexuais – pois ficam desinibidas o suficiente para experimentarem. A sociedade finge que isso não existe, mas é uma total hipocrisia. Beijar na boca não quer dizer nada e, por mais que isso soe estranho para você, fazer sexo pra muita gente também não. Obviamente não se aplica a todos, o mundo tem sete bilhões de pessoas. Existe inclusive uma escala que tenta rotular isso, se chama Escala de Kinsey. O que quero dizer é que da mesma forma que uma pessoa heterossexual se descobre na mais jovem idade nessa condição, um homossexual ou um bissexual também o faz. Não é uma escolha deliberada. Não existe OPÇÃO sexual. O que existe é ORIENTAÇÃO e se você se refere a isso como uma opção, então você é um idiota. Se assim o fosse levando-se em conta todas os preconceitos e mazelas da nossa sociedade homofóbica, por que alguém em sã consciência haveria de escolher ser gay? Por consequência, determinada a sua orientação sexual, você pode até conseguir beijar ou fazer sexo com alguém que não esteja de acordo com ela, mas amar? Desenvolver uma afetividade amorosa a ponto de querer construir uma vida junto? Ah, isso não. Pra isso é necessário muito mais do que sexo. Pessoas que estão juntas a muito tempo sabem disso. Sexo é um apenas mais um componente da nossa sexualidade e é exatamente aí que o termo muda de nome. Se torna, afetividade. Ser gay não é safadeza, não é doença, não é fase. Da mesma forma que ser heterossexual não o é. É uma condição e afirmo CATEGORICAMENTE que é impossível você “virar” qualquer coisa por influência dos amigos, por influência da TV, por influência da música que você escuta e etc. Nesse sentido, não use o termo homossexualismo, ele foi por muitos anos designado para tratar essa condição como doença. Coisa que está no passado. Fato consumado por dezenas de estudos desenvolvidos por times internacionais de médicos e psicólogos, em dezenas de países. Evite também o termo homossexualidade. Use homoafetividade quando possível. É um termo mais correto e respeitoso.

A propósito de respeito, a homofobia é o extremo oposto. Fazemos piadas com isso na maior naturalidade sem pensar muito nas consequências. No entanto, posso falar por experiência própria. Em nenhum momento da minha vida eu ouvi uma piada homofóbica sem sentir de alguma forma que aquilo era direcionado pra mim. Mesmo eu levando na esportiva, coisa que faço até hoje, sempre dói de alguma forma. As vezes mais e as vezes menos. Faz lembrar do passado, normalmente te lembra da tristeza que é ter sua personalidade completamente destruída e de todos os cacos que você ainda está juntando. Pra você que não é gay, certamente isso não faz nenhuma diferença. Mas para quem o é, faz e muita. Então porque continuar a propagar esse tipo de coisa? Não ajuda em nada, não faz bem a ninguém. Vejo as pessoas falando muito que isso é “mimimi” de minoria. Obviamente que quem fala isso não faz parte da minoria. Eu, particularmente, considero uma grande falta de empatia. A pessoa cresce sem ter que passar por nada disso, se desenvolve de forma saudável, tem a sua vida construída passo a passo com todo o apoio necessário da sociedade – sem medo algum – e, do alto da sua condição superior ainda assim não se vê impelida a evitar apenas uma mísera piada. Acha muito difícil não ser engraçada. Acha muito chato não ser homofóbico. A pessoa quer ter o seu direito ao escárnio e a humilhação garantidos. Se cada uma dessas pessoas soubesse o que é 1% do sentimento que eu já senti em muitas vezes por isso, certamente elas fariam 100% de esforço para nunca mais contar uma piada do tipo. E digo mais, lutariam contra isso. O mote deste dia 17 de maio, inclusive é isso aí. Lembrar de que não há necessidade alguma de ser homofóbico para ser engraçado. E se, em algum momento alguém perto de você for homofóbico, se manifeste, fale, abra a boca! Não é preciso ser gay para lutar contra a homofobia. É papel de qualquer cidadão decente e bem educado se posicionar contra isso. Capacidade de sentir empatia pelo próximo é muito mais do que uma virtude isolada, é óbvio sinal de inteligência. Pessoas empáticas sempre são respeitadas. Pessoas empáticas ficaram na histórica lembradas pelo seu respeito, são vistas como sábias. Entender a dor do outro, se colocar no lugar do outro, é uma das formas mais puras e belas de ser humano.

Continuando minha história para não perder o fio da meada. Só fui me permitir beijar alguém que eu realmente tinha vontade com 28 anos. Antes disso, o medo sempre foi maior. Inclusive, nessa primeira ocasião lembro que fiquei um ano com a consciência pesada. Isso ainda acontece até hoje. Não por um ano, talvez por um dia ou mais. Mas sempre acontece, sempre. Gosto de dar o exemplo aos meus amigos dizendo que é como aquela sensação de medo de fantasmas. Você sabe que não existe, mas no escuro e sozinho, você ainda sente o medo. É automático. Talvez eu tenha que conviver com isso pelo resto da minha vida. É um trauma. Quando decidi que iria contar para todo mundo que eu era gay, foi muito difícil. Eu fui falando aos poucos para amigos MUITO próximos e que SEMPRE amei do fundo do meu coração. Gente da qual eu NUNCA duvidei. No dia eu estava morrendo de ressaca e tristeza, lembro que antes de falar com a minha mãe, eu olhei no espelho e disse para mim mesmo que depois de contar, eu nunca mais me limitaria por isso na vida. Passei a considerar que se eu era capaz de passar por tanta coisa, então eu seria capaz de passar por tudo. Eu estava realmente no fundo do poço nessa época. Vinha de várias consultas ao psiquiatra seguidas. Estava completamente desestabilizado. Eu sou professor, eu sonhava com as risadas pelos corredores da escola, com os alunos me apontando o dedo, com as piadas dos colegas nas minhas costas. Coisas que realmente aconteceram depois, coisas que eu sempre fico sabendo por aí e no início me fizeram muito mal. Mas hoje eu lido melhor. A receita é fazer o que as pessoas não fazem: Entender o contexto da vida delas e refletir sobre como foi possível alguém chegar ao ponto de considerar humilhações por sexualidade, algo natural e engraçado. É deprimente, realmente deprimente, mas eu sou capaz de entender e até perdoar hoje em dia.

Uma das coisas que mais me deixaram apreensivo quando vi que todo mundo ia saber quem eu era de verdade, era como isso afetaria o meu papel de professor. Quem me conhece sabe que a escola é a minha igreja. Eu nutro profundo respeito pela ciência, pela docência e pelo que representa a educação para uma nação. Todos os meus esforços são direcionados para que TODOS os meus alunos me vejam antes de tudo como o PROFESSOR deles. Sei que este papel passa primeiramente pelas ações e, depois que tudo isso aconteceu, hoje me cobro ainda mais para manter essa condição. Quero que entendam que um gay pode ser um exemplo a seguir seguido. Pode ter seu dinheiro, sua casa, uma família, um casamento, ter uma excelente formação nas melhores universidades do país, ser respeitado pelos seus pares, possuir um grupo de amigos, sair, conversar, enfim, ser uma pessoa normal, uma pessoa na qual podem confiar. Quero que vejam que isso não é motivo de vergonha. Quero que vejam que mesmo você sendo gay, você pode dar muito orgulho aos seus pais, a sociedade e ao seu país! 

Graças a Deus eu fui cercado de muito amor. Eu não consigo descrever para vocês o quanto amor eu recebi na vida. E continuo recebendo até hoje. Meus pais são incríveis, meus irmãos são incríveis, minha madrinha é incrível. Eu tenho amigos incríveis (incluindo aqui vários ex-alunos). E no fim, quem não aceitou quem eu era de verdade, se afastou. E quando estes se afastaram, não sobrou nada além de amor a minha volta. E por isso, hoje vejo que escolher deixar claro para as pessoas quem eu realmente era, QUEM EU SOU, foi a melhor decisão que eu pude tomar. Simplesmente mudou tudo. E mudou tudo não somente porque eu fiquei em paz comigo mesmo, mas principalmente porque me trouxe a maior lição que eu tive até hoje: Existem coisas que não podem ficar, existem pessoas que não podem ficar, existem momentos e histórias que precisam ir embora e se você não fizer isso, você ficará doente. Não importa o quanto uma amizade é importante, não importa o quanto um amor é importante, não importa o quanto um parente é importante. VOCÊ É MAIS. As pessoas devem ter os seus lugares muito bem definidos na sua vida, seja no passado, seja no agora, seja no futuro. Aprender a colocar pessoas e situações no seu devido lugar pode trazer ENORMES benefícios para a sua saúde e para o seu bem estar. Foi o que aconteceu comigo. Não existe sentimento melhor do que estar rodeado de pessoas das quais você gosta, que você confia – e ter isso em troca. Isso é atender a sua condição biológica evolutiva. É viver segundo a sua maldição. Por isso, apesar de muito clichê, se esforce para não aceitar qualquer coisa. Se esforce para deixar no passado. Se esforce para se colocar em primeiro lugar. Não aceite qualquer forma de desprezo, especialmente se você já deixou claro para a pessoa as coisas que te magoam. Se ela insiste nisso. Então ela não serve. E você precisa tirar o time de campo e deixar ela ir.

Pra finalizar, preciso deixar claro para vocês que em alguns parágrafos é impossível contar essa jornada. Ela ainda continua, mas posso dizer que nunca estive tão bem comigo mesmo. Não gosto de ficar taxando momentos de felizes e não vou terminar esse texto dizendo “Ah como eu estou feliz agora!”. Mas posso dizer que os momentos passam, hoje nem lembro que sou gay. Antigamente isso era um caminhão nas minhas costas. É engraçado e assustador também olhar pra trás e ver que eu superei isso. Eu realmente me lembro daqueles momentos onde eu não tinha nenhuma esperança na vida. Sinto-me tão bem por ter superado isso. É muito estranho escrever essas coisas com tanta naturalidade hoje em dia. Se você é gay, se você se identificou de alguma forma com o que escrevi aqui, lembre-se: Você não é obrigado a ser o que você não é. Você não é obrigado INCLUSIVE a ser o que o status quo do próprio mundo gay espera que você seja.  Essa também era uma grande preocupação minha, “me adequar ao mundo gay”. Você precisa sim, respeitar a forma como as outras pessoas vivem. Existem gays transfóbicos, gays que por não serem afeminados se acham superiores. O que é patético. Mas você não precisa ser trans ou afeminado se também não for o seu caso. Você não precisa se vestir de borboleta, mas se você quiser, então vista-se! Ninguém tem nada com isso! É a sua vida! Viva ela!

Pessoas gays existem e devem ser respeitadas. As pessoas precisam acordar e se posicionar com veemência quando se depararem com situações de homofobia. Lutar contra a homofobia é sobre isso. Não é necessário ser gay, não é necessário ser político, não é necessário se filiado a qualquer partido, não é necessário ter nenhum desses estereótipos estúpidos que correm em grupos de WhatsApp para acabar com ela. O mundo já esta repleto de problemas. Todos os dias ouvimos notícias terríveis no rádio e na TV. SEJA PARTE DA SOLUÇÃO! Lutar contra a homofobia é se mostrar fundamentalmente capaz de respeitar o espaço do próximo. É ser capaz de entender que todos possuem direito a viver em plenitude a sua sexualidade e que isso não é um privilégio. É um preceito básico da dignidade humana ao qual todos devem ter acesso. Por fim, se você faz parte dessa luta, se você apoia essa causa, então você tem o meu respeito. Somos todos humanos.

Obrigado por ler esse texto!
Grande abraço!

6 Comentários - :

uai.marco disse...

4h da manhã, no meio de um turno de trabalho, lendo esse texto eu fui me vendo refletido ali... parabéns pelo texto!

Unknown disse...

Ótimo texto, parabéns! Todos os dias, a gente vê demonstrações homofobicas das mais diversas formas, como a do conselheiro do Sport Recife, ou as piadinhas do presidente da República... o preconceito está arraigado na sociedade, precisamos cada dia mais apoiar e lutar juntos contra qualquer tipo de preconceito, precisamos SER PARTE DA SOLUÇÃO. Abraços

Stella Faria disse...

Texto maravilhoso, emocionante, parabéns!

Unknown disse...

Lindo amei. A sinceridade

Patrícia Namitala disse...

Você é maravilhoso! Te amo, primo querido!

Felipe Campelo disse...

Ciniro, sempre te achei uma das pessoas mais extraordinárias que já tive o prazer de conhecer, e jamais soube que você carregava esse peso imenso do medo do ostracismo e do preconceito alheio, sozinho, acuado internamente por tanto tempo. Sinto muito não ter sido mais perceptivo para poder te acolher melhor nos anos em que convivemos nos corredores da Engenharia, e peço desculpas caso algum comentário descuidado meu possa ter te magoado ou te feito se sentir menos querido. Por mais que eu busque expurgar preconceitos do meu vocabulário, sei que por vezes ainda deve escapar algum zumbi linguístico dos anos 80. Você é um sujeito sensacional, brilhante, ponderado. Que você possa cada dia mais andar com a cabeça erguida, sem receios, cercado por gente querida. Conte comigo, sempre. Abraço forte,

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